Quem estava com Deus na criação do mundo?
Abraão 4 contém um relato da Criação, semelhante ao de Gênesis 1. No entanto, o contexto imediato em Abraão 3 indica que outros seres estavam com Deus durante aquele evento:
“E Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas […] E estava entre eles um que era semelhante a Deus; e ele disse aos que se achavam com ele: Desceremos […] e tomaremos destes materiais, e faremos uma terra onde estes possam habitar.”
O capítulo 4 prossegue, expressando o cumprimento de seus planos:
“E então o Senhor disse: Desçamos. E eles desceram no princípio; e eles, isto é, os Deuses, organizaram e formaram os céus e a Terra.”
Encontra-se algo semelhante em Gênesis 1:26–27, em que Deus diz:
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.”
Mais adiante, em Gênesis 3:22, Deus também diz que o ser humano se tornou “como um de nós”. Pergunta-se por que as palavras no plural “nós” e “nossa” são usadas nessas passagens. Quem mais poderia estar presente com Deus durante a Criação?
Uma pista no mundo antigo
Uma explicação possível para o plural nesses versículos pode vir da antiga ideia do concílio divino. Em textos de um lugar chamado Ugarit, ao norte de Israel, o Deus principal, chamado El, é retratado como um pai idoso que preside aos outros deuses de Ugarit.
Ele se assenta em seu trono, cercado por esses seres divinos, consultando-os e, em seguida, emitindo seus decretos com base nas decisões tomadas durante essas consultas. Isso não é muito diferente de uma experiência que alguém poderia ter, na realidade, em uma corte real, na qual se poderia observar um rei assentado em seu trono, consultando os conselheiros que o cercavam.

Cenas semelhantes na Bíblia
Encontram-se cenas como essa em outras partes da Bíblia hebraica também. 1 Reis 22:19–22 relata o seguinte:
“Então disse ele: Ouve, pois, a palavra do Senhor: Vi o Senhor assentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda. E disse o Senhor: Quem induzirá Acabe, a que suba, e caia em Ramote-Gileade? E um dizia desta maneira e outro de outra. Então saiu um espírito, e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu induzirei. E o Senhor lhe disse: Com quê? E disse ele: Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai, e faze assim.”
Nessa cena, o profeta Micaías está relatando o que viu quando testemunhou uma cena de concílio divino, com Jeová assentado em um trono e cercado por conselheiros. Jeová está discutindo com esses conselheiros sobre quem ele deveria enviar para enganar Acabe, de modo que este seja morto. Em 22:21–22, um ser divino se oferece para a missão. O profeta Micaías pode ver essa cena porque lhe foi permitido ver o concílio divino em ação.
Jeremias 23:18, 21–22 também se refere a uma cena de concílio divino:
“Porque, quem esteve no conselho do Senhor, e viu, e ouviu a sua palavra? quem esteve atento à sua palavra, e ouviu? […] Não mandei os profetas, contudo eles foram correndo; não falei a eles, contudo eles profetizaram. Porém, se estivessem no meu conselho, então fariam o meu povo ouvir as minhas palavras, e os fariam voltar do seu mau caminho, e da maldade das suas ações.”
Esses versículos pressupõem que apenas os verdadeiros profetas, e não os falsos profetas, que correm para espalhar suas próprias ideias, são capazes de ver o que acontece no concílio divino e compartilhar os resultados com os outros.
Zacarias 3 também retrata uma cena do concílio. Nesse capítulo, Zacarias vê Josué, o sumo sacerdote, em pé diante de Jeová, com um “acusador” ao lado. Esse acusador é semelhante a um promotor de justiça dos tempos modernos, mas, neste caso, trata-se de um ser do reino divino. Outros, presumivelmente seres divinos, estão em pé diante de Jeová, e ele lhes ordena que deem a Zacarias roupas novas, o que eles fazem.
Embora seja menos claro, o concílio divino também pode estar implícito em Amós 3:7:
“Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas.”
Nesse versículo, a palavra traduzida como “segredo”, sod, é a palavra que os estudiosos acreditam fazer referência a um concílio divino. Parece que os povos antigos entendiam que Deus sempre revela seu segredo, ou os planos de seu concílio divino, aos profetas, para que possam guiar o povo de forma eficaz.

O porquê
Embora geralmente não seja percebido, reconhecer a presença do concílio divino muda sutilmente a forma como os leitores do Velho Testamento o compreendem. Isso ajuda a explicar, por exemplo, como se pode visualizar o papel de um profeta.
Em vez de pessoas que de algum modo transmitem mensagens de Deus de uma maneira vaga, esse entendimento mostra que, em muitos casos, eles são pessoas que viram Deus assentado em concílio e voltaram à humanidade para transmitir as decisões desse concílio. Isso ajuda a explicar a autoridade dos profetas como mensageiros de Deus e dá uma razão pela qual os antigos israelitas confiariam em suas palavras.
O concílio divino também muda sutilmente a forma como se vê Deus. Em vez de um Deus que existe em isolamento divino, a noção de um concílio divino permite que se veja Deus cercado por assistentes com os quais Ele interage.
Essa imagem de um Deus que está disposto a interagir com outros pode ajudar os leitores de hoje a ver Deus como um ser que também poderia estar disposto a interagir com os seres humanos, a ouvi-los e a se relacionar com eles, algo que é crucial para a fé.
E o que isso revela sobre Cristo
Por fim, isso afeta a forma como se vê Cristo. Em Moisés 2:26, Jesus é claramente parte desse concílio divino: “E eu, Deus, disse a meu Unigênito, que estava comigo desde o princípio: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e assim foi” (Moisés 2:26). Isso mostra a importância de Cristo no processo da Criação e em tudo o que se seguiria na história humana.
Fonte: Scripture Central
Veja também
Post original de Maisfé.org
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